Eu sempre pensei em escrever isso na entrada daquele lugar. Talvez eu ainda faça isso. O lugar se chama Vale das virtudes, localizado entre Inoocop, Campo Limpo e Capão Redondo.
Porque não existe placa desejando boas vindas na favela nem na entrada nem na saída?
A verdade é que na época eu pensava em escrever em inglês, algo como "Welcome to Guetto".
Escrito assim ia ficar mais parecido com a arte polêmica do Banksy do que com meu estilo...
Será?
Se você não conhece esse artista, por favor, pare um pouco a leitura e pesquise no Google...
A entrada dali realmente faz qualquer um perceber que está adentrando em um vale. Mas não um daqueles onde você sabe que é uma obra da natureza com relva, floresta ou muita vegetação verde. Talvez tenha sido assim um dia.
Antes das pessoas esquecidas pela sociedade começarem a se instalar ali. Construiram barracos, casinhas de todos os tipos com o que tinham a disposição e conseguiram. Existem sim casas comuns, casas grandes e muita gente ruim e interesseira, mas muita gente honesta e trabalhadora que não tiveram muita chance. Deixe-me falar das pessoas que valem a pena primeiro. O resto deixarei para outro texto.
Primeiramente fui morar lá porque estava em um bairro em Taboão da Serra, o Três Marias onde já havia sido assaltado inúmeras vezes, mas como prometi não falar das pessoas de mau caráter aqui... Enfim no Taboão eu morei com um colega e sua filhinha. Deixei um livro que ensinava a desenhar para ela quando sai de la. Uma garotinha tão inocente. E um lugar rodeado de perversidade misturado com pedaços de dignidade e alguns toques, digamos, de surpresas de filmes de terror. Seu pai, embora alguém que tivesse dificuldade em acordar cedo cuidava da melhor forma que podia dela. Sei que a irmã que morava em outro bairro fazia o possível também. Ele era motoboy, não sei o que faz atualmente, pois perdi o contato. Um kara que me ajudou muito seja me acolhendo quando não tinha onde morar ou dividindo comida quando não tinha o que comer. Na periferia as pessoas boas dividem com você até mesmo o que elas não tem para elas. Sou eternamente grato a esse meu amigo e todos os outros anjos que me ajudaram na caminhada. Seus nomes não estão na Bíblia, mas fizeram coisas que certamente estariam se Jesus estivesse na terra como homem nos dias atuais.
E se ele estiver?
A questão é que lá no Taboão eu estava sozinho (sem parentes) e nessa casa onde eu morava de aluguel estava sem energia e alguns meses sem água. E fazia um frio imenso. Certos dias quando saia para trabalhar desejava apenas voltar e ter energia, só para não ter que ficar comprando velas e lendo com dificuldade a noite. Embora me lembrasse momentos bons no interior ao lado de uma lamparina.
Quando conheci uma amiga num stand de livros que me arranjou um barraco nessa favela embaixo de onde ela dividia com outro amigo na parte do meio. Em cima no terceiro andar moravam o pai e outro filho.
Nietzsche dizia que só conseguíssemos perceber a felicidade por comparação. Então se você fica mais de 1 mês sem água e depois tem até água quente o dia nasce até mais ensolarado.
Pagava 400,00 lá, mas era mais seguro com algumas exceções que não estenderei por agora.
Pelo menos lá tinha água com um chuveiro quente e energia. Isso na época foi o maior motivo da minha mudança. Eu pagava esse valor com a venda de perfumes e cosméticos. Ia de porta em porta. A medida que você ouve uma certa quantidade de "não" você fica blindado. Nessas andanças conheci muitas pessoas e claro, muitas histórias. O mais interessante é que fui morar lá por acaso. Mas a região ficava próxima de uma casa de shows, o Alfenas Show Bar, que já havia sido do meu pai. Ele fazia divulgação nos arredores na época que era dono do estabelecimento, mas depois que vendeu nunca mais entrou na favela. Dizia que o lugar não trazia boas lembranças. Nunca soube da viela 7, uma das poucas que davam p casa q me serviu de moradia por longos 4 meses.
No Taboão o tempo parecia mais nublado naquele bairro. Será que era impressão minha?
Difícil saber. A energia de um lugar diz muito sobre ele.
O que alegrava era andar de skate e fazer grafitti. Ah, quando havia alguma tinta disponível era muito bom.
Salvava meu dia como um bom livro salvava a noite. Lá não cheguei a fazer nenhuma arte comercial, embora tenha feito algumas letras de um barzinho em estilo livre.
Ia fazer a fachada de uma pizzaria, mas o dono vendeu e só descobri quando fui mostrar os rascunhos.
Fiz uma tatuagem com um kara de lá. Ele tatua até hoje e na época me explicou mais sobre a quebrada.
O dono da casa veio do interior do Ceará, vivia dizendo que lá tem muitos lugares bonitos e que um dia voltaria a morar lá quando tivesse melhores condições. Que veio para São Paulo pela falta delas. Esse também me ajudou demais. Seja dividindo a comida dele e do filho seja alongando prazo do aluguel ou trocando uma parte dele por ajuda em sua casa. Sem contar que cuidava do meu gato quando eu estava fora, dava alguma comida para o bichinho. As vezes eu não tinha nem pra mim que dirá para o animal. Esse vive comigo até hoje e adora ficar na sacada de onde moro agora olhando tudo la em baixo. Gostaria muito de ter fotos daquele ano que morei lá, vou procurar ainda e se encontrar postarei. Não tenho mais o celular daquela época e as fotos que tenho são mais atuais. Das vezes que voltei lá não encontrei o dono do barraco em casa, provavelmente estava trabalhando ajudando a realizar o sonho de algum patrão. Mas ele ja teve alguns sonhos. Até realizou alguns no passado como abrir seu pequeno restaurante, teve funcionário e tudo mais, mas o sócio...foi passado para trás, enganado! Aprendi muita coisa naquele lugar, por isso apesar de momentos difíceis volto lá sempre que posso e vejo algumas pessoas da época. Lembro de 2 ex detentos que foram soltos, se converteram e viviam falando da igrejinha que viraram fiéis. Toda vez estavam sentados na mesma calçada na mesma esquina da mesma rua. A última vez que fui lá estavam no mesmo lugar! Sempre a procura de algum bico para fazer, sempre sorrindo. Esses não sei o que fizeram além de alguns furtos no passado, coisas que contam. Ali eu conheci e convivi de perto com muita simplicidade e humildade. Obrigado a todos que ajudaram de alguma forma mesmo sem precisar pedir ajuda. Jamais esquecerei seus nomes.





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